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A vocação intelectual

O intelectual esforça-se por alcançar a unidade do conhecimento e a unidade de vida, considerando a dimensão moral da inteligência.

Por natureza, todos os homens são racionais. Mas nem todos se valem da inteligência do mesmo modo, sendo esse fato um dos fatores da diferença e incompreensão entre as pessoas. Em linhas gerais, podem-se perceber três modos básicos de lidar com a inteligência: um modo técnico-profissionalizante, um modo diletante-hedonista e um modo filosófico-existencial. Boa parte da nossa cultura intelectual baseia-se na especialização científica, com que se instrumentaliza e adestra o intelecto para fins pragmáticos e utilitários, e no entretenimento “cult", com que os elementos da alta cultura são simplificados e  esvaziados da sua dimensão filosófica e existencial, em nome do consumo imediato e industrial, que a padroniza numa linguagem midiática. O predomínio dessas formas de inteligência dificulta o reconhecimento de um uso mais exigente dela, para fins eminentemente cognitivos e sapienciais, como guia que orienta o homem no mundo. Nesse sentido filosófico, a inteligência está afinada à espiritualidade e à sabedoria, sendo cultivada como necessidade vital dos que se sentem inclinados a desbravar o horizonte da Cultura, da Filosofia e da Ciência, que permanece ignorado pela maioria, mesmo numa era de crescente escolarização como a nossa.

A maneira mais segura de compreender o que é a vocação intelectual é defrontar-se com um intelectual autêntico, que parece viver num plano mais profundo da realidade, ao considerar todas as coisas, pacientemente, à luz da inteligência, em diálogo com os grandes pensadores de todos os tempos. Na autobiográfica Carta Sétima, Platão descreve que a Filosofia brota pela convivência continuada com um amante da sabedoria, que a valorize acima das outras ocupações humanas corriqueiras. Aos poucos, o intelectual torna-se um alter-ego e um modelo mimético, revelando a vocação do seu amigo.

Nem todos têm a fortuna de encontrar alguém apaixonado pelo conhecimento, ao ponto de lhe devotar a própria vida, com todo o grau de disciplina, renúncia, perseverança e solidão que as longas horas de leitura e meditação exigem. Entretanto, a cativante obra de Sertillanges é capaz de apresentar a grandeza dessa personalidade: “A vida intelectual – seu espírito, suas condições, seus métodos” (ed. É Realizações). Frade dominicano, o autor foi um destacado expoente, no século XX, da Filosofia e Teologia de Santo Tomás de Aquino, capazes de responder aos desafios impostos pela crise do pensamento contemporâneo. Como se sabe, o responsável pela monumental “Suma Teológica”, no século XIII, aprendeu da tradição clássica de Platão, Aristóteles e Santo Agostinho a superioridade da vida contemplativa, como dedicação à compreensão do mundo em sua inteireza e complexidade, sem reducionismos e sem reservas. Para o intelectual contemplativo, tudo se torna estimulante ao pensamento, e a vida lhe parece curta diante da amplitude do horizonte que ele desvenda, fazendo-se humilde e arrojado, ao mesmo tempo.  

Para atender a esse desafio de completude e articulação, é necessário suplantar o modelo fragmentado de conhecimento que caracteriza a modernidade, que separa a Teologia da Filosofia e a Filosofia das Ciências. O intelectual esforça-se por alcançar a unidade do conhecimento e a unidade de vida, considerando a dimensão moral da inteligência, como eixo das virtudes cardeais da temperança, fortaleza, prudência e justiça. Não lhe basta um curso universitário, que o especialize numa ciência particular, para fins de remuneração profissional e prestígio social. Para ele, conhecer é algo necessário, constitutivo de quem ele é. Se não consagrar a sua vida a essa tarefa, ela se desperdiça e perde o significado. Mesmo que não possa dedicar a maior parte do seu tempo às atividades intelectuais, ele preserva o mínimo necessário para manter acesa a chama de reflexão que sua inteligência demanda. Segundo Serillanges, duas horas diárias de leitura, solidão e silêncio permitem o cultivo da interioridade e da intelectualidade, sustentadas, indiretamente, pelas outras atividades.

Mas essa solidão não é isolamento e egoísmo, pois o intelectual resiste à tentação do egoísmo e da autossuficiência, reconhecendo que sempre pertence ao seu tempo. Ele carrega o “sentimento do mundo”, de que fala Drummond, sentindo-se contemporâneo e presente na sua sociedade, entre seus pares. Ele sabe que os grandes desafios são no campo da ideias, que, em última instância, movem o mundo.   

O intelectual se sente um servidor da verdade, que ele não cria, mas contempla e obedece, compartilhando-a com os demais. Por isso é um vocacionado, disposto a renunciar a prazeres imediatos e fugazes em nome de um ideal maior, mais duradouro, que exige tenacidade, certa incompreensão alheia e sacrifícios, como o do comodismo, da preguiça, do sono, das conversas ociosas e dos modismos em geral. Ele não tira férias, não suspende a sua atividade mental, porque lhe é algo vital, o alimento do seu espírito. Mesmo sem o regime de leitura e escrita que caracterizam seus dias de trabalho mais intenso, o seu repouso é apenas uma recuperação, pois ele continua a sentir-se questionado e motivado, independente da situação em que esteja. Ele atende à exortação de Ricardo Reis (Fernando Pessoa): “Para ser grande, sê inteiro... / Sê todo em cada coisa. Põe quanto és / No mínimo que fazes.” Concentrado, o intelectual se recolhe e articula suas experiências num centro que irradia sentido a tudo, e que confere beleza e graça à vida.

 

Nota: Este ensaio é dedicado à feliz memória da minha amiga escritora, pesquisadora e educadora Maria Stella Faciola Pessôa Guimarães, falecida em 9/7/2016, que tão generosamente viveu a sua vocação intelectual, com toda humildade, discrição, companheirismo e responsabilidade. Sua admiração e amizade por Benedito Nunes resultaram numa pesquisa valiosa, que merece ser continuada, agora em honra de dois intelectuais paraenses exemplares.    

 

Publicado no Jornal O Liberal de 24.julho.2016. 








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