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Ciência sem consciência

A característica mais marcante da linguagem moral atual é ser fonte de um debate interminável, parecendo não haver meio racional de solucionar polêmicas como aborto, ação afirmativa e política partidária.

A crise moral é a base da crise política que reduz toda autoridade a uma retórica de poder. Na origem dessa indistinção entre autoridade e poder, reside a perda da distinção moral entre relações sociais manipuladoras e não-manipuladoras, que desponta do subjetivismo. O diagnóstico desse problema foi realizado com propriedade por Alasdair MacIntyre, um dos mais proeminentes filósofos da atualidade, no seu importante livro “Depois da virtude” (ed.USC), que recupera a sabedoria clássica das virtudes para iluminar o labirinto sem saída da ética moderna, presa nas aporias do subjetivismo (crença no sujeito autônomo como fonte dos critérios morais) e do cientificismo (divisão radical entre o conhecimento da natureza empírica e a experiência dos valores humanos).

A característica mais marcante da linguagem moral atual é ser fonte de um debate interminável, parecendo não haver meio racional de solucionar polêmicas como aborto, ação afirmativa e política partidária. Quando se começa a debater sobre esses assuntos controversos, logo se percebe que os interlocutores estão usando linguagens morais diferentes e incompatíveis entre si. Sem acordo prévio sobre as premissas de um raciocínio, toda discussão transforma-se numa altercação de surdos-mudos. Percebe-se que esses debates são marcados por uma incomensurabilidade conceitual dos argumentos divergentes, ou seja, eles são irredutíveis entre si porque não se pode julgar um pelo outro. É uma experiência babélica, da ausência de uma língua comum para traduzir idiomas morais inconciliáveis. Os pressupostos que fundam o raciocínio moral são postulados de forma dogmática e inquestionável, opondo-se as suas respectivas consequências lógicas, válidas apenas no interior de cada premissa. Quando esses argumentos são trazidos para o espaço público, eles são apresentados como racionais e impessoais, velando seus pontos de partida não fundados racionalmente. A afetação de neutralidade e universalidade que eles ostentam denuncia a vontade de disfarçar o poder retórico com a autoridade moral.

A sociedade moderna surgiu com a perda da unidade substancial de laços religiosos que marcam as comunidades tradicionais, pré-modernas. O vínculo moderno por excelência é a troca econômica entre indivíduos egoístas e autointeressados. Nesse sentido, a “comunidade espiritual” pré-moderna transforma-se na “sociedade comercial” moderna. O individualismo liberal embasa o pluralismo de concepções morais entremeadas. Os indivíduos com interesses comuns se associam, formando igrejas, grupos e partidos que conferem densidade coletiva à ação individual. Mas como esses grupos têm origens históricas e sociais diversas, o diálogo entre eles revela a ausência de consenso moral básico na sociedade, pois não existe um discurso unificado e coerente, e sim um mosaico de fragmentos valorativos desconexos, um quebra-cabeça sem encaixe entre as peças, sem uma imagem unitária inicial ou final. 

A principal causa dessa divergência moral irredutível é o subjetivismo de tipo “emotivista”, como o analisa MacIntyre. Predominante na modernidade, essa ética considera todos os juízos como expressões de preferência de sentimentos subjetivos. Quando se afirma que “isso é bom”, não se está descrevendo objetivamente a qualidade de uma coisa, mas apenas expressando um “gosto” pessoal, que influencia os ouvintes a aderirem a ele. Para o emotivismo, afirmar que “isso é bom” significaria dizer: “Gosto disso; goste você também”. Nega-se, portanto, a possibilidade de uma justificativa racional para uma moralidade objetiva, independente da anuência do indivíduo e à qual ele deve obedecer por reconhecimento de autoridade. Nesse contexto, a linguagem moral reduz-se a um instrumento retórico de manipulação, deixando de ser uma reflexão sobre a “vida boa” de uma sociedade ou sobre a felicidade do homem como tal, pela realização de sua natureza. Neutraliza-se a racionalidade da toda tradição moral, que é julgada por um indivíduo considerado autônomo e independente dela.

A consequência desse subjetivismo é o relativismo moral, perceptível em dois personagens típicos do mundo moderno: o burocrata e o terapeuta. Empenhado na eficiência técnica, o burocrata ignora os fins morais da ação coletiva a que pertence, fragmentada em partes isoladas. Quanto ao terapeuta, ele trata os fins morais como fatos consumados, fora de sua alçada técnica, que se limita à transformação eficaz dos sintomas neuróticos em energia sublimada, a fim de “ajustar” os indivíduos aos seus objetivos pessoais, sejam eles quais forem. Com isso, substitui-se a questão moral da verdade pela eficácia psicológica, o que alcança também a educação e a religião.

Nesses arquétipos da vida moderna, aos quais se podem acrescentar o político e o advogado, divide-se a realidade em dois segmentos estanques: o domínio objetivo dos fatos mensuráveis pela ciência positiva (cientificismo), pautado na eficácia técnica dos meios, e o domínio subjetivo dos valores criados por indivíduos autônomos (subjetivismo). Como esses valores são frutos das emoções e sentimentos subjetivos, eles não são científicos, racionais e discutíveis. Nesse pêndulo de cientificismo e subjetivismo, a modernidade encerra o paradoxo ser uma era de racionalismo irracionalista, porque apresenta um universo de meios técnicos e racionalmente eficazes, no momento em que nega a racionalidade ética dos fins morais. Em outras palavras, a razão científica moderna sabe muito bem “como” fazer algo, mas cala-se sobre o “porquê” de realizá-lo. Falta-lhe sabedoria, ou, parafraseando Rabelais, desenvolve-se uma ciência que demite a consciência moral. 

 

Publicado no Jornal O Liberal de 15.abril.2016.

 







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