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Cultura do espetáculo

O imaginário moral do homem contemporâneo forma-se, sobretudo, por meio do jornalismo sensacionalista e da evasiva cultura da diversão, com a banalidade predominante nos filmes, novelas, músicas e internet.

Com a chegada da Feira Pan-Amazônica do Livro, que anualmente atrai milhares de pessoas sedentas de leitura, surge a pergunta: Entre os inúmeros títulos disponíveis, qual livro comprar? O mais vendido? O mais recente? O da capa mais vistosa? O escrito por uma personalidade em evidência midiática? O clássico exigente de que todos já ouviram falar, mas poucos leram na íntegra?

O fato de a literatura ser promovida por uma "feira", com seus aspectos positivos e negativos, revela a fisionomia da cultura contemporânea, bem compreendida por Mario Vargas Llosa, em “A civilização do espetáculo – uma radiografia do nosso tempo e da nossa cultura” (ed. Objetiva). Trata-se de uma apologia da cultura no sentido clássico, hoje gravemente ameaçada de extinção: um testamento intelectual escrito por um dos últimos humanistas vivos, que relembra o legado dos que viveram da cultura, como um manancial de ampliação do horizonte existencial e da história humana, como José Ortega y Gasset, Otto Maria Carpeaux, Benedito Nunes e René Girard.

Há dois tratos básicos com a cultura: um vital, outro superficial. Hoje, a formação humanista que a considera um alimento indispensável para a sensibilidade e o intelecto, e que se esforça por hierarquizar as produções culturais dos homens e dos povos, a partir de um critério pedagógico de excelência moral, filosófica e científica, encontra-se neutralizada pela indústria cultural de massa, pautada no entretenimento imediato e na distração ociosa para descanso domingueiro ou agitação sensível. No sentido tradicional do termo, a vocação da cultura é a de ser uma atividade edificante, uma exigente montanha a ser escalada para a elevação do espírito humano: o contato com as obras dos intelectuais e artistas que aprofundaram nossa compreensão de certas experiências humanas fundamentais, como o amor e ódio, justiça e traição, e as plasmaram numa linguagem inteligível para outras gerações. A cultura seria um antídoto contra o reducionismo e a alienação, a consciência vigilante que não se furta da realidade, nas suas múltiplas dimensões, religiosas, políticas, morais e artísticas. Pouco resta do cultivo dos clássicos nas escolas e universidades, orientadas pelo cientificismo e pragmatismo. O imaginário moral do homem contemporâneo forma-se, sobretudo, por meio do jornalismo sensacionalista e da evasiva cultura da diversão, com a banalidade predominante nos filmes, novelas, músicas e internet.

Nos seus traços gerais, a cultura do espetáculo é “jornalística”, porque presa à efemeridade dos dias que se sucedem dispersivamente, subtraídos da memória histórica; “descartável”, porque plasmada num objeto a ser consumido e logo esquecido e substituído pelo mais recente; e “comercial”, porque tem o mercado, provocado pela propaganda e pelo mimetismo de massa, como fonte de valor. Nesse sentido, há uma oposição radical à cultura humanista, que desponta de uma aspiração à transcendência, ao aprofundamento no que é permanente e essencial do homem, do que resiste à força impiedosa do tempo, como ensina George Steiner, em “No castelo do barba azul - algumas notas para a redefinição da cultura” (ed. Companhia das Letras). Ora, mesmo quando divorciada da contemplação religiosa de que provém, a ação “cultural” genuína é um “culto” secular, uma observação de uma dimensão mais profunda da realidade. A audição de uma música de câmera e a leitura de poesia lírica, por exemplo, dependem do silêncio, da calma, da introspecção, do recolhimento que busca unidade na dispersão e fragmentação das vivências cotidianas. Em poucas palavras, a cultura motiva o autoconhecimento, o encontro consigo mesmo, para além das representações e convenções sociais.

Isso parece cada vez mais distante da nossa vida cibernética de hiperconectividade, que não dispensa o celular num só instante, mas o usa para compartilhar, simultaneamente, tudo o que se vive com os outros. Lançamos nossos olhos curiosos e insaciáveis para o mundo exterior, nas telas dos cinemas, televisões, e computadores; queremos saber o que está acontecendo agora, em todo canto do mundo, com os Estados, com os ídolos midiáticos, como artistas e atletas, e também com as outras pessoas comuns. Queremos nos mostrar e assistir aos outros, numa combinação de exibicionismo e voyeurismo, antevista por Guy Debord, em 1967, na indispensável análise da nossa “Sociedade do espetáculo” (ed. Contraponto). Queremos o “espetáculo”, o “show”, por isso usamos esses substantivos para designar a qualidade de uma atividade qualquer, seja uma aula na universidade, uma sustentação oral no tribunal, uma cirurgia no hospital, ou um gol no estádio de futebol. O importante é causar uma forte comoção.

Um dos grandes escritores da atualidade, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura, Vargas Llosa revela um tom fúnebre em suas análises culturais, estarrecidas  em face do espetáculo atual da arte sem beleza, da filosofia sem verdade, da moral sem bondade, do erotismo sem amor, da política sem justiça e da religião sem transcendência. Todavia, desponta também um acorde de esperança e resistência diante da vulgarização da cultura. As épocas de decadência também podem ser períodos de renovação. O fato de podermos encontrar, na Feira Pan-Amazônica do Livro, autores como Platão, Dante, Shakespeare e Guimarães Rosa, além dos demais citados neste ensaio e no de Llosa, se não garante, por si só, a reconstrução cultural do que se perdeu, permite, pelo menos, o vislumbre dos grandes saltos do espírito humano, que mantém acesa a chama do saber e do prazer que só a alta literatura nos concede.

 

Publicado no Jornal O Liberal de 29.maio.2016. 

 







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