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Democratização da excelência cultural

O contato com os melhores, os clássicos incomparáveis que elevaram o nível da linguagem, da comunicação e do pensamento, provenientes de outras épocas ou outras civilizações, concerne à universalidade do espírito humano.

 

 

Uma distinção conceitual ponderada esclarece a ambiguidade que a noção de “cultura” encerra, superando a problemática dicotomia entre “elitistas” e “populistas”, “aristocráticos” e “democráticos”, “universalistas” e “relativistas”. Trata-se da diferença essencial entre cultura no sentido antropológico e pedagógico. 

Quem afirma que “tudo é cultura”, nivelando todos os fenômenos culturais - do orfanato cristão aos campos de concentração nazistas, da pichação ao parlamento, do cordel aos “Lusíadas”, do pergaminho à internet -, refere-se ao sentido antropológico, de alcance inclusivo e quantitativo, que elide as diferenças substancias entre as produções humanas para fins de registro. Por princípio científico, o historiador, o antropólogo e o sociólogo esforçam-se para não avaliar as culturas que descrevem, limitando-se a catalogá-las num plano horizontal de indiferença moral e pedagógica. Nesse sentido, qualquer atividade humana pode ser considerada cultura, mesmo que irrelevante ou “desumana” para outra sociedade. Precavendo-se de uma possível imposição étnica, religiosa, classista, etária ou sexual, esse relativismo metodológico que fundamenta as ciências sociais seria a garantia de uma descrição objetiva e imparcial, mais próxima da realidade efetiva e mais independente do observador. Assim, não haveria diferença se é um brasileiro ou um chinês, com toda carga cultural que cada um traz consigo, a descrever certa cultura africana, pois os valores do cientista não incidiriam na descrição neutra dos fatos.

Por outro lado, no interior das sociedades históricas e nas relações culturais exógenas, desenvolve-se um princípio de seleção de certas atividades e produções como preferenciais para “cultivar” e aperfeiçoar o homem, a partir de um padrão de excelência humana. Esse é o critério pedagógico, que julga os fenômenos culturais e os hierarquiza num quadro vertical de comparação, superação e desenvolvimento, permitindo o juízo de evolução e decadência. Nesse contexto, é possível cotejar as culturas e os períodos históricos, sempre com base num princípio moral de dimensão pedagógica, assim como num princípio intelectual de dimensão científica, que explicita o ideal de excelência humana respectivo. Instituições de conservação cultural como a Universidade, a Biblioteca, o Museu e o Conservatório expressam essa dimensão pedagógica e tecnológica, que insere o homem numa tradição de excelência a ser emulada e superada.

O contato com os melhores, os clássicos incomparáveis que elevaram o nível da linguagem, da comunicação e do pensamento, provenientes de outras épocas ou outras civilizações, concerne à universalidade do espírito humano, que reflete uma essência comum. Reconhecendo a diversidade como fator de diferenciação e não de equiparação, a cultura no sentido pedagógico refina e elabora uma experiência humana, cristalizando-a de modo a torná-la acessível por todos os homens em todos os tempos. Daí porque a expansão da arte marcial japonesa, da democracia grega, da literatura russa, da pintura italiana e da música alemã é potencialmente ilimitada no tempo e no espaço, independente da permanência das estruturas sociais que as geraram. 

Como Platão demonstrou na “República”, a dinâmica cultural e intelectual não difere da esportiva, em que os melhores são selecionados e lembrados, permanecendo como exemplo das próximas gerações. Quem se lembra do oitavo colocado na Copa do Mundo de 1970? Quem conhece a literatura de terceira categoria produzida na França do século XIX? Mas tanto o time de futebol perdedor quanto a literatura inferior pertencem à cultura antropológica, embora careçam de exemplaridade pedagógica. 

Quando se empregam essas duas noções antagônicas de cultura no interior de uma sociedade democrática e pluralista como a nossa, é natural que o sentido antropológico neutralize o pedagógico, acarretando uma demissão do ideal de excelência humana e um processo de amnésia cultural em relação às obras até então conservadas. Em vez de salvaguardar a tradição cultural, a Escola e a Universidade, por exemplo, tendem a valorizar o novo, o diferente, o mais acessível, popular ou massificado, em detrimento das obras edificantes da alta cultura, que são exigentes, complexas e demandam uma formação superior. A cultura erudita passa a ser considerada “elitista”, “aristocrática”, restrita aos abastados, marcada por uma ideologia de classe. Em nome do incontestável valor político da igualdade, sacrificam-se e relativizam-se as formas superiores de vida e pensamento.

Isso explica o trágico fenômeno, observado por Mário Vieira de Mello, em “O conceito de educação da cultura - com referência ao estetismo e à criação de um espírito ético no Brasil” (Ed. Paz e Terra), do crescimento de alfabetizados e de iletrados no Brasil. Ou seja, aumenta o número dos que sabem ler na medida em que diminuem os que acedem à boa literatura. O resultado é que hoje há proporcionalmente menos leitores de Machado de Assis e Guimarães Rosa, dois dos nossos maiores e mais exigentes prosadores, do que na década de 1960, quando menos brasileiros sabiam ler.

A equação desse aparente paradoxo deve ser a democratização da alta cultura, a elevação do nível intelectual da população em geral, diminuindo o número de analfabetos funcionais com a constante revisão do que pode haver de restritivo e excludente nos cânones culturais, e não uma renúncia antropológica à excelência cultural.      

 

Publicado no Jornal O Liberal de 9.julho.2017.

 

 







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