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UM NOVO EQUILÍBRIO <br><br>

UM NOVO EQUILÍBRIO

A NOVIDADE DA ÉTICA CRISTÃ SUPERA O MEIO-TERMO DE ARISTÓTELES, PORQUE A VIRTUDE CRISTÃ NÃO ESTÁ NO MEIO, MAS NA AFIRMAÇÃO DA COEXISTÊNCIA DOS OPOSTOS, QUE SE CONTRABALANÇAM MANTENDO, CADA QUAL, A SUA PRÓPRIA RADICALIDADE.

“Como és morno, nem frio nem quente, vou vomitar-te”

Livro Bíblico do Apocalipse, 3:16

A sensatez é normalmente considerada uma forma de equilíbrio e ponderação entre excessos. Qualquer radicalização sempre tende a ser desmesurada e a não alcançar o objetivo desejado. Presente na sabedoria tradicional das grandes tradições sapienciais, como no “caminho do meio” de Buda, a formulação filosófica mais completa do princípio ético da mediania é a de Aristóteles. Na “Ética a Nicômaco”, ele define as virtudes particulares como a posição intermediária entre dois extremos. Assim, por exemplo, a coragem é o meio-termo entre a deficiência da covardia e o excesso da ousadia; a temperança equilibra-se entre a insensibilidade e a licenciosidade; a generosidade, entre a avareza e a prodigalidade; a magnanimidade, entre a mediocridade e a vaidade; a mansidão, entre a apatia e a irritabilidade; a modéstia entre a timidez e o despudor.

Levando em conta esse critério da ponderação moral, G.K.Chesterton, um dos grandes escritores e mais famosos intelectuais convertidos do século XX, admirou-se com a estranha “prudência” do cristianismo. Ele percebeu que a religião de Cristo não era nem temperada, nem razoável, do ponto de vista humano: “Seus violentos cruzados e dóceis santos poderiam compensar-se uns aos outros; todavia, os cruzados eram muito violentos e os santos muito dóceis, dóceis além de qualquer decência”, nota Chesterton no capítulo central, ‘Os paradoxos do cristianismo’, da sua instigante obra “Ortodoxia” (Ed. Ecclesiae).

Vivendo num contexto intelectual progressista, cientificista, materialista, secularista e relativista, Chesterton chegou ao cristianismo pelo reconhecimento de que as críticas modernas a essa religião eram contraditórias entre si, porque a refutavam sempre a partir de um ponto de vista parcial, o qual era contestado por uma perspectiva crítica oposta.

Uns diziam que o cristianismo era profundamente pessimista ao enfatizar a queda, o pecado original e a condenação do inferno; outros, que ele era demasiado otimista, advogando o perdão e a salvação no paraíso. Alguns alegavam que o cristianismo era tímido, monástico e pouco viril, pregando a virtude da pobreza e mansidão, tornando o homem um animal de rebanho; outros, que ele era demasiadamente bélico e intransigente e inundara o mundo de sangue com as Cruzadas e com as guerras de religião. Uns diziam que o cristianismo era sóbrio demais, austero e despojado, com seus hábitos incolores e pálidos; outros, que ele era repleto de pompa e ritualismo, com seus templos exuberantes e seus paramentos de ouro. Certos céticos diziam que o cristianismo acabou com a família, ao arrastar as mulheres à solidão e à contemplação do claustro; outros, que ele obrigava a mulher a casar e a cuidar da família, impedindo-a da solidão e contemplação.

Por isso, conclui Chesterton: “Assim, a dupla acusação dos secularistas, embora lançando apenas trevas e confusão sobre si mesmos, projeta uma luz real sobre a fé. É verdade que a Igreja histórica enfatizou ao mesmo tempo o celibato e a família, defendeu ferozmente ao mesmo tempo (se assim se pode dizer) que se deve ter filhos e que não se deve tê-los. Manteve as duas coisas lado a lado como suas cores fortes, vermelho e branco… Tudo o que a Igreja fez foi impedir que uma dessas coisas boas desbancasse a outra. Elas existiram lado a lado. (…) O paganismo declarou que a virtude estava em equilíbrio; o cristianismo declarou que ela estava em conflito: a colisão de duas paixões aparentemente opostas”.

Qual seria a nossa reação se a opinião acerca de uma pessoa se dividisse entre os que a consideram alta demais ou baixa demais, gorda demais ou magra demais, morena demais ou branca demais? Não poderiam estar errados os críticos? Ao cogitar essa hipótese, Chesterton constata: “Talvez, em suma, essa coisa extraordinária seja realmente a coisa ordinária; pelo menos, a coisa normal, o centro. Talvez, no fim das contas, o cristianismo fosse sadio e todos os seus críticos fossem loucos – de maneiras variadas.”

A novidade da ética cristã supera o meio-termo de Aristóteles, porque a virtude cristã não está no meio, mas na afirmação da coexistência dos opostos, que se contrabalançam mantendo, cada qual, a sua própria radicalidade, e não por diluírem-se num meio-termo que os desfigura. A grande arte cristã barroca é um exercício estético desta verdade ética: a tensa coexistência de claro e escuro nos quadros de Caravaggio, por exemplo, não resulta num cinza desbotado e pálido, assim como o avanço das notas agudas nas fugas de Bach não impedem a escalada das graves.

Esse novo equilíbrio provém da afirmação central do cristianismo, a de que Jesus Cristo é plenamente Deus e plenamente homem, e não uma mistura confusa dos dois, um semideus, um superhomem, um elfo ou um centauro. O símbolo cristão por excelência é a cruz, que, com seus ângulos retos, mantém os vértices vertical de transcendência divina e horizontal de imanência humana numa tensão permanente, sem equacioná-los numa curva perpendicular. Com a cruz, afirma-se tanto o céu, quanto a terra, ambos com sua realidade própria, mas interseccionados, o princípio material e o espiritual, a morte e a ressurreição, a humildade e o orgulho, a queda e a redenção, a verdade e a caridade.

Publicado no Jornal O Liberal de 31.dezembro.2017.

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